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O tipo
18.03.2014

Acho nossa língua muito rica e, por isso mesmo, pouco valorizada. Nas últimas três décadas, o ensino de língua materna sofreu mudanças. A propagação de cursos de Linguística Aplicada nas Universidades ajudou muito nesse processo. Bom para nosso idioma, que passou a ter novos conceitos e olhares. Adveio o respeito a todas as manifestações linguísticas. Antes, só o falar culto merecia atenção da escola. Contudo, respeitar as variantes linguísticas não significa não distinguir essas variações. Como professor de língua portuguesa – de ensino médio e universitário – , tenho acompanhado certos exageros sobre isso. No dia a dia, não importa o contexto (conversa informal ou formal, apresentação de trabalhos, defesa oral de um argumento ou num simples pedido para ir ao banheiro), nós tratamos com muito descuido a língua. Antes que alguém me acuse de querer controlar o falar das pessoas, até porque isso não se controla, alerto para o fato de que não se trata disso, mas de atentar a essas diferenças. Sou do tempo em que “você” era tratamento destinado a amigos; “senhor(a)”, aos mais velhos. Parece que essa nostalgia não nos leva a nada, mas essa relação emissor- receptor importa muito no domínio do idioma. Saber que existe diferença entre as pessoas a quem me dirijo é um dos recursos básicos para quem quer dominar o idioma. Se você tem por “dominar o idioma” aquele conceito de decorar a gramática, esqueça. Quem domina a língua hoje é um poliglota na própria língua, ou nas palavras de Raul: “uma metamorfose ambulante”. Nessa experiência apaixonante de dar aulas há 18 anos, ainda vejo alunos (mesmo os da faculdade) que não sabem fazer uma pergunta sem usar a palavra “tipo”: “Professor, eu posso, tipo, usar maiúscula depois de dois-pontos?”; “Eu acho que, tipo, fica certo”. Porém, o “tipo” não é “coisa” só de adolescentes ou de bancos escolares, a língua é viva, e o “tipo” está aí para ajudar você a começar qualquer frase, mesmo quando não se precisa dele: “Preciso, tipo, comprar uma coisinhas, tipo, pra minha formatura...”. É tanto “tipo” que quando se precisa dele, ele parece não servir mais: “Novo tipo de celular”. Preste atenção, faça um teste e, certamente, ouvirá alguém falando “tipo” à mesa ao lado, na fila do banco ou numa reunião importante. Esse fenômeno linguístico da oralidade merece ser estudado pelos linguistas. Ainda não vi registros marcantes na escrita, mas parece inevitável. Por isso, acho necessário cobrar a habilidade linguística dos alunos. Digo que eles devem saber a hora necessária de usar. Há, nas minhas aulas, alunos que desistem de me fazer perguntas após eu estabelecer a condição de não puderem usar a palavra “tipo” desnecessariamente. “Que maldade, por que você faz isso?”, perguntam alguns. A resposta é simples: preparo meus alunos para saberem se expressar em todos os contextos. Numa aula de língua portuguesa, a oralidade também deve ser avaliada. Ou alguém prefere este parágrafo assim: “Que maldade, por que você – tipo – faz isso?”, perguntam alguns. A resposta – tipo – é simples: preparo meus alunos – tipo – para saberem se expressar – tipo – em todos os contextos. Numa aula de língua portuguesa, a oralidade – tipo – também deve ser avaliada.

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